Quinta-Feira , 02 de 09 de 2010 às 13:01h
Não sei o que dizer a vocês, leitores do blog. O cabotinismo nunca fez parte de minha história. Nem pessoal nem profissional. Mas, fico me perguntando: como não republicar neste blog o artigo que Gonzaga Rodrigues - o grande e insuperável Gonzaga - publicou no Jornal da Paraiba, editção de hoje.
Falei com Martinho Moreira Franco, que entende de Gonzaga mais do que Chico Viana entende de gramática, e com Petrônio Souto, que não é craque da gramática como Chico, mas é um especialista das reações humanas.
Chega de conversa e vamos ao que Gonzaga Rodrigues, colunista do Jornal da Paraíba, publicou hoje:
O PROVECTO AGNALDO
POR gonzaga rodrigues.
Nessa terça-feira, 31 de agosto, Agnaldo Almeida deu-me a boa surpresa dos seus 60 anos. Vim ser lembrado por telefonema de Silvio Osias, que me convidava para o lançamento, na Livraria Cultura do Recife, de seu livro vitorioso sobre Barreto Neto.
Agnaldo com 60 anos? – ruminei na memória. Como matutei incrédulo, há poucos dias, quando recebi convite para os 70 anos do menino de Clovis. Aos meus olhos, o Afrânio empresário, ex-deputado, o jovial avô de hoje, nunca deixará de ser o meninote que D. Lourdes não conseguia segurar em casa, quando éramos vizinhos da Visconde de Pelotas. Os Bezerra Cavalcanti num bangalô simples por fora e por dentro, e o depoente aqui, então ocupante precário do quarto de hóspedes da API.
Quando Agnaldo incorporou-se à imprensa de João Pessoa, encontrou-me dezessete anos mais velho. Chegava de seu batismo profissional em Campina Grande, já sabendo o que bem queria, a vocação no jornal e a obrigação no aprendizado acadêmico de bioquímica. Eu já estava me despedindo do jornalismo braçal, atalhado menos pelos militares da ditadura do que pelo sorriso amarelo dos aproveitadores mirins do regime.
Jovem, nos seus vinte anos, falando-me de Zé Pinheiro e do núcleo campinense com quem militara (Nêumanne entre eles) o novo companheiro deixava transparecer afinidades que sempre se impuseram à minha bem-querença: amor à vocação e busca intensa dos meios e modos de valorizá-la, desejo nunca satisfeito de aprender e compreender e, no final das contas, fazer do jornalismo, da informação, o mais fiel e verdadeiro serviço público. Sem estrelismo, claro.
Ganhava a imprensa uma das suas belas inteligências, um dos seus mais competentes mestres-de-obra, com a vantagem de pautar, analisar, redigir e informar sem olhar apenas para a máquina, mas sempre com o olhar no humano, acima da pauta ou da própria notícia.
A mais difícil das peculiaridades da imprensa paraibana, que é jogar um jornal oficial na disputa com a concorrência, teve reedição sob a regência de Agnaldo. Burity, governando na ditadura, mandou inscrever como slogan de A União “Não há democracia sem imprensa livre”.
Um contrassenso em face do país real. Nessa contingência, conseguimos um dos maiores índices de leitura, só superado pelas tiragens do revolucionário 1930 e, possivelmente, entre 1959 e 1962, quando as reformas preconizadas no governo de Goulart e a luta camponesa tinham peso em suas páginas de notícia e de opinião.
A militância de trinta ou quarenta anos de hoje, em sua grande maioria, deve a esse companheiro e líder uma das mais competentes, democráticas e solidárias regências. Diretor de jornal e até secretário de estado, quantas vezes fui cobrado por ele, sem meias palavras para interceder em favor da discriminação política ou ideológica que sempre fermentou nos subterrâneos de influência de todos os poderes.
Afastado da redação, do batente, trouxe para o artigo diário de linguagem objetiva o cultor da boa forma, da escrita clara, e não raro de algumas incursões pelo subjetivismo de expressão lírica. De certa feita, o leitor que esperava uma reflexão ou opinião política teve de comover-se com páginas fora das nossas antologias. Uma delas, que guardo entre as mais comovedoras, a do garoto de Zé Pinheiro, sentado num meio-fio à beira do campo de pelada, vendo morrer assassinada pelo marido enciumado a mulher em cujos seios se aninhavam aqueles olhos infantis.
O que os olhos não fazem! Nos meus, pelo menos, o tempo nada tira dessa foto em que se abraçam, sem careca, os cabelos negros e longos alguns, os quatro irmãos de adoção recíproca, prêmio da vida de imprensa: Martinho, Milton, Agnaldo e o preto velho às ordens deles e do leitor.
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Quarta-Feira , 01 de 09 de 2010 às 08:34h
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Domingo , 29 de 08 de 2010 às 07:48h
Por Agnaldo Almeida
Leiam o texto abaixo e vejam até que ponto chega a força do vício de fumar. Não é fácil deixá-lo nem debaixo da terra.
“Cigarro, cigarro e cigarro. Pelo amor de Deus mandem cigarros!”.
Esse foi o apelo dramático de um dos trinta e três mineiros chilenos que estão presos na mina San José desde o dia 5 de agosto, quando o principal acesso ao túnel da mina ruiu. Eles conseguiram se abrigar em um refúgio, com acesso limitado a água e comida, a quase 700 metros de profundidade.
Por meio de um bilhete, o homem implorava que alguém lá em cima o socorresse em sua síndrome de abstinência.
A sobrevivência dos 33 mineiros só foi descoberta mais de duas semanas após o acidente, quando uma sonda chegou ao local onde eles estavam e voltou com um bilhete dos trabalhadores. Os mineiros estão recebendo alimentos, oxigênio e medicamentos por canos.
Não se sabe se os cigarrinhos também foram enviados para os mineiros. Se não o fizeram, é pura malvadeza. Se fosse aqui perto, eu mesmo ia levar alguns.
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Domingo , 29 de 08 de 2010 às 07:46h
O Reino Unido estuda mudar suas leis sobre doação de sêmen e óvulos para tentar acabar com a espera em clínicas de fertilização, que chega a dois anos.
Um das mudanças visa autorizar a remuneração dos doadores. A outra, permitir que o esperma de um mesmo homem seja utilizado na fertilização de até 20 mulheres. O limite hoje é de dez, para reduzir as chances de casamento entre meio-irmãos.
O estoque de óvulos e esperma caiu muito no Reino Unido desde 2005, quando acabou o anonimato dos doadores.
Desde aquele ano, qualquer adolescente, quando completa 18 anos, pode por lei obter a identidade do doador do esperma e/ou do óvulo que possibilitaram seu nascimento.
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Domingo , 29 de 08 de 2010 às 07:44h
Conta a atriz Fernanda Torres, em artigo publicado na edição deste domingo da Folha de S. Paulo, que uma senhora explicava muito calmamente, numa roda de amigos, porque iria votar na ex-ministra Marina Silva para presidente da República. Dizia ela:
- Voto por para Dilma, Lula é Deus; para Serra, Deus é São Paulo e para Marina, Deus é Deus mesmo.
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Sexta-Feira , 27 de 08 de 2010 às 19:08h
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Quinta-Feira , 26 de 08 de 2010 às 21:22h
Caetano e Chico: amigos, amigos, governo à parte
Eles são amigos, admiram-se mutuamente, até dividiram um programa de televisão, mas em matéria de política Chico e Caetano nunca concordaram. O documentário “Uma Noite em 67”, realizado num momento de grande agitação política, está aí para mostrar como, desde os 20 e poucos anos, eles já pensavam diferente.
Esta semana, mais uma vez, a diferença foi explicitada: Caetano apareceu no programa eleitoral, pedindo votos para Marina Silva (PV): “Preste atenção no que Marina Silva fala na TV e nos jornais. Vamos levar Marina Silva para o segundo turno”, disse, muito sério.
Eleitor histórico do PT, Chico não apareceu na televisão, mas em abril, bem antes do início da campanha eleitoral, declarou seu voto em Dilma Rousseff (PT): “Eu confesso, vou votar na Dilma porque é a candidata do Lula e eu gosto do Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença”, disse em entrevista à revista “Brazuka”, editada na França.
Filiado ao PV e ex-ministro do governo Lula, Gilberto Gil é outro músico daquela “Noite em 67” cujo voto é conhecido. Em maio, numa pré-convenção do partido, ele declarou apoio a Marina e a diferentes candidatos verdes a governos estaduais. Sua aparição na propaganda eleitoral já foi anunciada, mas ainda não ocorreu.
Uma quarta personagem que participou do festival da Record em 1967, a cantora Rita Lee, veio a público nesta quinta-feira declarar seu voto, ou melhor, seu “não-voto” nestas eleições. No Twitter, Rita falou mal de Dilma, Serra, Marina e, até, de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL).
Todos os candidatos a incomodam, escreveu, porque são cercados por diferentes “corjas”. No caso de Dilma, José Dirceu, “o Darth Vader do Sítio do Pica-pau Amarelo”. Serra, por causa de Orestes Quércia, “o conde Drácula de Campinas”. Marina, em função de “sua igreja, o cristianismo pré histórico”. E Plínio, em razão de Stálin, “o ditador do MST”.
Rita Lee reproduziu a crítica de um leitor, que escreveu: “O que mais incomoda em você é a corja de traficante, bandido e ladrão que você sustentava com seu vício”. Mas acrescentou: “por que no te calas?”.
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Quinta-Feira , 26 de 08 de 2010 às 18:03h
Ô, Zé! Vâmu brincá di antôimi?
- O que c'ocê falô???
- Brincá di an-tô-ni-mi, sô! Qué dizê, uma coisa contráia da ôtra!
Purixemplu: arto e baxo, forte e fraco...
- Ah, intindi! Intão, vâmu brincá!
- O que vai valê?
- Uma cerveja... Eu cumeço, tá?
Começaram a brincadeira:
- Gordo?
- Magro!
- Hômi?
- Muié!
- Preto?
- Branco!
- Verde?
- Verde? Nada disso! Verde é cor, num tem antônimo, não!
- Craro que tem!
- Intão ixprica, sô!
- Maduro!
- Ô, merda ! Pirdi a aposta! Vâmu di novo, valendu ôtra cerveja? Mas dessa veiz ieu cuméçu!
- Pódi cumeçá!
- Saúde?
- Duença!
- Moiádo?
- Seco!
- Agora ocê vai sifudê, sô fidumaégua! Qué vê só?
- Fumo?
- Não, não! Peraí, peraí... fumo num tem antônimo!!!
- Craro qui tem, uai!
- Intão, diz aí, qualé o antônimo de fumo?
- Vortemo!
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Quinta-Feira , 26 de 08 de 2010 às 17:58h
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Quarta-Feira , 25 de 08 de 2010 às 08:34h
Gil, com Os Mutantes, canta Domingo no Parque
Antes de completar cinco semanas em cartaz, "Uma Noite Em 67", de Renato Terra e Ricardo Calil, já é o documentário mais visto deste ano pelo público brasileiro.
Com imagens de arquivo e depoimentos de músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, o filme conta a história da final do "3º Festival da Música Popular Brasileira". O filme alcançou 51 mil espectadores, segundo o site Filme B.
Ele abre larga distância em relação ao seu seguidor no ranking de documentários mais vistos em 2010, "O Homem que Engarrafava Nuvens", segundo colocado deste ano, vendeu apenas 20 mil ingressos.
Por meio dos arquivos da TV Record e de depoimentos de quem estava lá, o filme revê um momento que iria se provar fundamental para a forma que assumiria, a partir dali, a música brasileira.
Há Chico Buarque ("Roda Viva"), Caetano Veloso ("Alegria, Alegria"), Gilberto Gil ("Domingo no Parque") e Roberto Carlos ("Maria, Carnaval e Cinzas") a defender suas canções. E há todos eles a rememorar aquela noite.
"Eu era um fantasma no palco", diz Gil, que caiu de cama, em pânico, horas antes da apresentação.
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Terça-Feira , 17 de 08 de 2010 às 11:45h
Por Aristheu Formiga
Olhando por estes óculos que me servem, com a perspectiva de um trabalhador da educação que vive da comunicação, ouso discutir estes fazeres e ofícios, na semana em que troquei o grau de minhas lentes.
Vivemos num país em que seguidamente, nos últimos meses, crescemos a economia a um ritmo quase chinês, mas ainda temos diferenças sociais significativas, entre as diversas faixas de renda.
Temos, ainda, perto de 20 milhões de analfabetos, em paralelo com uma juventude digitalmente incluída, que se comunica através de meios e ferramentas eletrônicas de comunicação, na Internet. Temos, assim, desafios de trazer parte da população para o século XX, junto com o entendimento e participação do que se constrói, se vive e se sonha atualmente.
Educação e política
Nas aulas que tive, no final dos anos oitenta, com o professor Paulo Freire, assimilei que a decisão de educar a população é um ato fundamentalmente político. As iniciativas de governo em educar, mostram resultados um pouco além dos calendários eleitorais, tal como vivemos hoje.
Discute-se modelos de atividade econômica, gargalos logísticos ao desenvolvimento, alianças externas com a Bolívia, Irã ou Venezuela, mas pouco se fala da educação necessária. Algumas iniciativas são elogiadas, mas atribuídas ao populismo do governo no poder, tais como a interiorização das universidades públicas, a expansão do ensino tecnológico federal, nas modalidades de educação à distância.
Temos iniciativas governamentais, tais como a Universidade Aberta do Brasil, que é um sistema integrado por universidades públicas, que oferece formação para camadas da população que têm dificuldade de acesso à formação universitária, por meio do uso da metodologia da educação a distância.
De forma silenciosa e sistemática, cidades não contempladas com o ensino superior público, tais como Indaial e Itapema, sediam pólos desta modalidade de formação continuada.
Eu quero é mais
Este é o nome de uma dissidência de um bloco de carnaval em Olinda, chamado de Eu Acho é Pouco, que eu participava quando tinha idade e fôlego para as Folias de Fevereiro.
Querer mais, sempre mais, deve ser a medida do que precisamos ter e fazer pela educação. Isto deve ser discutido não apenas em plataformas de candidatos a governos do estado e federal, mas também no nosso cotidiano, aqui no Vale do Itajaí, onde necessário for.
Defender o ensino superior público, se possível de acesso universal e de qualidade, deve ser uma bandeira a ser cobrada aos nossos candidatos, a diferentes cargos eletivos, como forma de se conquistar autonomia, desenvolvimento sustentável, de se ter educação. Sempre mais.
Aristheu Formiga é paraibano, radicado em Santa Catarina, alem de jornalista e professor universitário. E colaborador deste blog
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Terça-Feira , 17 de 08 de 2010 às 08:28h
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Segunda-Feira , 16 de 08 de 2010 às 21:51h
Pedras no caminho
Fernando Pessoa
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas... um dia vou construir um castelo...
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Segunda-Feira , 16 de 08 de 2010 às 18:52h
Jennings: uma gang domina os esportes
O jornalista britânico Andrew Jennings, conhecido por seu trabalho sobre corrupção na Fifa, proferiu no início deste mês, em São Paulo, durante o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, palestra sobre o tema "Investigação em esportes".
Entre outros assuntos, ele tratou dos casos de corrupção envolvendo países-sedes e entidades responsáveis pela organização de grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Segundo Jennings, enquanto se discute rivalidades clubísticas e aspectos técnicos, Ricardo Teixeira e os dirigentes do esporte brasileiro estão abrindo a porta dos fundos do Brasil para os bandidos da FIFA e do COI. Não, ele jamais fora processado pelas denúncias feitas, segundo o próprio. Jennings é do tipo raro, que espera conseguir documentos para denunciar e colocar em constrangimento aqueles que precisam se explicar.
Ele foi muito claro, direto e objetivo. Quando indagado se será bom para o Brasil receber a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, respondeu que cabe aos brasileiros avaliar se o País, hoje, precisa construir mais hospitais, melhorar o sistema de saúde, saneamento básico, transporte, habitação para os pobres, segurança, ou construir estádios que nunca mais estarão lotados.
Lembrou que a Copa do Mundo da África do Sul foi absolutamente super faturada, com péssima utilização de dinheiro público e que não deixou nada além de “elefantes brancos.”. Antes do início da Copa — e durante – este Blog publicou os horrores e a hipocrisia da Fifa e seus parceiros na África do Sul. Leiam agora a entrevista que ele deu ao site Sempre Tricolor:
Em suas investigações sobre a Fifa, o que o senhor descobriu?
A Fifa é comandada por um pequeno grupo de homens – não há mulheres em altos postos da entidade e isso fala por si – que está lá há muitos anos. São homens em quem não devemos confiar e contra quem temos provas contundentes. Eles podem continuar no poder porque controlam o dinheiro. E tornam a vida dos dirigentes das confederações nacionais muito boa e fácil. Fico envergonhado porque ninguém se manifesta contra esse poder.
Como os dirigentes se manifestariam?
Zurique, sede da Fifa, é uma Pyongyang do futebol. O líder fala e os outros agradecem. Numa democracia é esperado que haja discordância, oposição. Na Fifa, não há. Eles têm um congresso a que, ironicamente, chamam de parlamento. São cerca de 600 delegados – acho que são 2 ou 3 por país representado, e são 208 países. Se você chegasse de Marte acharia que o mundo é perfeito, porque todos concordam. É vergonhoso. Nisso, a CBF é tão culpada quanto todas as outras confederações.
Que instrumentos a Fifa usa para manter esse poder?
A Fifa dá cerca de US$ 250 mil por ano para cada país investir em futebol. Na Europa, não precisamos desse dinheiro. A indústria do futebol fatura o suficiente para se alimentar. Mas é uma forma de a Fifa se manter. Esse dinheiro nunca é auditado. Na Suíça, a propina comercial não era ilegal até pouco tempo, apenas o suborno de oficiais do governo. O caso que eu conto no meu livro é justamente sobre um esquema de propinas pagas pela International Sport and Leisure (ISL), empresa que negociava os direitos televisivos e de marketing da Fifa. A história é cheia de detalhes, mas no final a ISL só foi responsabilizada pelo fato de gerenciar mal seus negócios enquanto devia para outras empresas.
Não houve punição?
Como eu disse, o pagamento de propina não era ilegal na Suíça. Portanto, não havia crime a ser punido. As acusações contra a Fifa foram retiradas e a entidade foi multada em 5,5 milhões de francos suíços (cerca de US$ 5 milhões) para custos legais.
Por que os governos não se envolvem ou a Justiça não faz algo?
Porque a sede da Fifa é na Suíça e a lei lá é muito permissiva. Para outros países, é inaceitável que esses homens se safem tão facilmente e que os altos dirigentes riam da nossa cara desse jeito. O que me deixa enojado é que os líderes dos países – o primeiro-ministro britânico, o presidente Lula e todos os outros – façam negócio com essas pessoas. Eles deveriam lhes negar vistos, deveriam dizer que não querem se relacionar com dirigentes tão corruptos. E tenho certeza de que, se os governantes se voltassem contra a corrupção da Fifa, teriam apoio maciço dos torcedores/eleitores.
Por que todos são tão complacentes?
Suponhamos que você seja uma torcedora fanática pelo seu time. Você vai à Copa do Mundo, mas como sempre há escassez de ingressos. Você então compra suas entradas de cambistas, mesmo sabendo que parte desse ágio vai voltar para o bolso da Fifa, já que ela é suspeita de liberar esses ingressos para os ambulantes. Você não pode provar, claro, mas você sabe. As pessoas não são estúpidas. Os governos menos ainda, eles podem investigar o que quiserem. Mas não investigam a Fifa porque os políticos simplesmente ignoram os torcedores. É o que já está acontecendo com a Copa de 2014. Qualquer brasileiro com mais de 10 anos sabe que a corrupção já está instalada. Por que ninguém faz nada?
Por quê?
É difícil saber. Se um país relevante enfrentasse a Fifa ela recuaria. Ou você acha ela excluiria o Brasil de uma Copa? Eles conseguem enganar países pequenos, esquecidos pelo mundo. Mas, se o Brasil dissesse não à corrupção, provavelmente a América Latina se uniria a vocês. E você acha que esses líderes latino-americanos nunca discutiram a possibilidade de um levante, de fazer o que os europeus já deveriam ter feito há tempos? Acho que lhes falta coragem.
O Brasil tentou fazer uma investigação, por meio de uma CPI...
Tentou e foi ao mesmo tempo uma vitória para o país e uma grande decepção, porque pararam de investigar no meio. O povo vai ter de pressionar os políticos a fazer algo. É realmente uma pena que o Brasil tenha chegado tão longe na investigação e tenha desistido no caminho. Havia provas para seguir em frente, para tirar a CBF das mãos do Ricardo Teixeira e, quem sabe, colocar auditores independentes lá dentro. A Justiça também poderia ser mais ativa. Por mais que eles tenham comprado alguns juízes, não compraram todos, certamente.
Sabendo de tudo isso o senhor ainda consegue curtir o futebol, se divertir com ele?
Sim, porque a corrupção não está tão infiltrada nos jogos, embora chegue a essa ponta também. Ela fica mais nos bastidores. Há exceções, como na Copa de 2002, em que a Espanha e a Itália foram roubadas grotescamente. Era importante para a Fifa que a Coreia do Sul passasse adiante. Não foi culpa dos jogadores, mas as razões políticas e econômicas se impuseram. Na Coreia, o beisebol é mais popular do que o futebol. Se eles fossem desclassificados, os estádios se esvaziariam. Neste ano, todos ficaram de olho nos jogos de times africanos. Blatter também precisa de um time do continente nas oitavas. A questão é que, quando assistimos às partidas, assistimos aos atletas, ao esporte, então, é possível confiar. É fácil punir um árbitro corrupto e a maioria não é corrompida.
Então, a corrupção não interfere tanto no esporte?
Cada centavo que os dirigentes tiram ilicitamente da Fifa ou das organizações nacionais é dinheiro que eles tiram do esporte e de investimentos. Portanto, estão desviando de nós, torcedores, e dos atletas que jogam no chão batido em países subdesenvolvidos. Eles tiram dos pobres.
É possível para os jogadores, técnicos e dirigentes se manterem distantes da corrupção no futebol?
Bom, o dinheiro normalmente é tirado do orçamento do marketing, não afeta jogadores e técnicos dos times nacionais. Uma coisa interessante é o comitê de auditoria interna da Fifa. Um dos membros é José Carlos Salim, que foi investigado muitas vezes no Brasil. Por que você acha que ele está lá? Para fingir que não vê.
A corrupção no futebol começa nos clubes e se espalha ou vem de cima para baixo?
Sempre haverá um nível de roubalheira em todas os escalões. Para isso temos leis e, às vezes, conseguimos aplicá-las. Mas a pior corrupção está na liderança mundial. Quase todos os países assinam tratados internacionais anticorrupção, mas não fazem nada quanto aos desmandos da Fifa e do COI. E, quando algum governante tenta ir atrás de dirigentes de futebol corruptos, a Fifa ameaça suspender o país. Só que ela faz isso com os pequenos. Fizeram isso com Antígua! Suspenderam o país minúsculo que ousou processar o dirigente nacional. Ninguém falou nada. Eu escrevi sobre isso porque tenho fãs lá que me avisaram do caso.
O senhor se sente uma voz solitária na imprensa?
Não confio na cobertura esportiva das agências internacionais. Em outras áreas elas são ótimas. Não no esporte. É uma piada. Apresento documentários com denúncias graves sobre a Fifa na BBC, num programa de jornalismo investigativo chamado [ITALIC]Panorama[/ITALIC], e dias depois a BBC Sport faz um programa inteiro em que Joseph Blatter apresenta alegremente a nova sede da Fifa em Zurique.
O senhor acompanhou a briga do técnico Dunga com a imprensa brasileira?
Não vou comentar o episódio porque não acompanhei de perto. Posso dizer que a imprensa inglesa e a da maioria dos países é puxa-saco. E sem razão para isso. A desculpa é que os editores têm medo de perder o acesso às seleções e à Fifa. Bobagem. Ora, eu fui banido das coletivas da Fifa sete anos atrás e ainda consegui escrever um livro e fazer várias reportagens. A imprensa deve atribuir as responsabilidades às autoridades. Se não fizer isso, é relações públicas. Tenho milhares de documentos internos da Fifa que fontes me mandam e não param de chegar. Por que só eu faço isso?
A cobertura se concentra mais no evento esportivo em si e nas negociações de jogadores?
Exato, também porque a chefia das redações tende a se concentrar nos assuntos de política nacional, internacional e na economia e deixar o esporte em segundo plano.
O que o senhor espera da Copa no Brasil, em 2014?
Há algumas semanas, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as construções para a Copa. Estranhei muito, porque não imagino que o governo brasileiro se recusaria a financiar uma Copa. Vocês são loucos por futebol, estão desenvolvendo sua economia, têm recursos e podem achar dinheiro para isso. Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.
Três de seus livros são sobre as Olimpíadas. As falcatruas acontecem em qualquer esporte ou são predominantes no futebol?
Sou cuidadoso ao falar disso. Sei que a liderança da Fifa é muito corrupta – e venho publicando isso há mais de dez anos sem que eles tenham me processado nem uma vez sequer, o que diz muito. O COI era muito pior sob o comando de Juan Antonio Samaranch (morto em abril deste ano), que presidiu a entidade de 1980 a 2001. Ele era um fascista e o fascismo é, além de tudo, uma pirâmide de corrupção. Samaranch trabalhou ao lado do generalíssimo Franco. Essa cultura franquista e fascista se transformou em uma cultura gângster.
A corrupção no COI diminuiu com a saída de Samaranch?
Vou ilustrar com uma história. No meu site publiquei uma foto de Blatter cumprimentando um mafioso russo, em 2006, em um encontro com dirigentes do país. O russo foi quem fez o esquema em Salt Lake, na Olimpíada de Inverno de 2002, para que os conterrâneos ganhassem o ouro em patinação artística. Pois bem, Blatter, Havelange e muitos outros da Fifa são parte do comitê do COI. Essa é a dica de como a Rússia está agindo para sediar a Copa de 2018.
Foi assim que o Brasil conseguiu a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016?
Na votação em Copenhague, que deu a sede olímpica para o Rio de Janeiro, o nível de investigação jornalística foi ridículo, só víamos a praia de Copacabana com o povo feliz. Há um grupo no COI que já foi denunciado por receber propina no escândalo da ISL – e quem acompanha a entidade sabe quem eles são. Os dirigentes dos países só precisam pagar umas seis ou sete pessoas para conseguir o voto. Existe, com certeza, uma sobreposição entre os métodos da Fifa e do COI. Mas a cultura das duas entidades não é tão estrita quanto à de uma máfia, é mais como se fossem máfias associadas, apoiadas umas nas outras. Coca-Cola, redes de fast-food, Adidas, você acha que essas companhias não sabem o que está acontecendo? Eles não são estúpidos. A cara de pau é tamanha que Jacques Rogue, presidente do COI, disse em Turim, em 2006, que o COI e o McDonald’s compartilham os mesmos ideais. Será que ele não sabe quanto a obesidade infantil é um problema gravíssimo em vários países? Ou faz parte do jogo ceder a esses interesses?
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Sexta-Feira , 13 de 08 de 2010 às 22:14h
No primeiro semestre deste ano, a editora Paz e Terra relançou, numa iniciativa do historiador Marco Morel, o livro A Revolta da Chibata. Quem tem menos que 35 anos e não é aficionado por samba, muito provavelmente não conhece O Mestre Sala dos Mares, com letra de Aldir Blanc e música de João Bosco.
Gravado em 1977, entrava no registro de música altamente alegórica para passar pela censura do regime militar. A música narra um dos momentos mais dramáticos da primeira fase da República brasileira e completamente maldito para a Marinha, mais conhecido como A Revolta da Chibata.
Em 1910, mais de 2.300 marinheiros, quase todos negros e mulatos, se insurgiram contra o castigo corporal então infligido e tomaram conta de quatro navios de guerra em plena Baía da Guanabara, chegando a bombardear o Rio de Janeiro, então capital da República.
Pois este capítulo da história nacional feita por gente do povo teve o seu melhor e mais apurado registro em obra que agora ganha relançamento, meio século depois de sua primeira edição, o clássico do jornalista Edmar Morel (1912-1989), A Revolta da Chibata. Esta reedição especial, organizada pelo historiador Marco Morel, neto do jornalista, tem como anexo o diário inédito em livro de João Cândido, o líder da revolta.
O material foi originalmente publicado em 12 edições no jornal Gazeta de Notícias, entre 1912 e 1913. Esta nova edição incorpora, ainda, uma nova introdução e uma rica seleção de imagens do Acervo da Fundação Biblioteca Nacional.
Esta obra traz o registro, entre outras qualidades, de um dos capítulos mais importantes na luta dos Direitos Humanos no Brasil em termos mais geral e do combate aberto ao racismo que ainda persiste. Entre documentações várias e imagens expressivas pesquisadas e aqui impressas a partir dos arquivos, encontra-se a carta manifesto dos revoltosos ao governo.
A REVOLTA
A Revolta da Chibata foi um importante movimento social ocorrido, no início do século XX, na cidade do Rio de Janeiro. Começou no dia 22 de novembro de 1910.
Neste período, os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. As faltas graves eram punidas com 25 chibatadas (chicotadas). Esta situação gerou uma intensa revolta entre os marinheiros.
As Causas
O estopim da revolta ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega da Marinha, dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro e a punição, que ocorreu na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta.
O motim se agravou e os revoltosos chegaram a matar o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo. O clima ficou tenso e perigoso.
Reivindicações
O líder da revolta, João Cândido (conhecido como o Almirante Negro), redigiu a carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os revoltosos ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro (então capital do Brasil).
Segunda revolta
Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações, o presidente solicitou a expulsão de alguns revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras.
Esta segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram presos em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras. Neste local, onde as condições de vida eram desumanas, alguns prisioneiros faleceram. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.
O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta.
Edmar Morel
O cearense Edmar Morel chegou ao Rio de Janeiro nos anos 30 e logo se tornou um dos principais jornalistas da época, tendo atuado nas principais mídias como O Globo, Jornal do Brasil, O Cruzeiro, incluindo e outros aliados à militância da esquerda nacionalista e democrática, logo, fora da esfera do Partido Comunista de Luis Carlos Prestes.
Essa passagem histórica da Revolta da Chibata teve ampla cobertura da imprensa em 1910, mas depois disso caiu no pleno esquecimento e não foi à toa.
O livro foi resultado de 10 anos de pesquisas de Edmar Morel passando pelos mais diversos materiais: fontes documentais, relatos orais, matérias de jornais da época, manuscritos, debates parlamentares, livros, textos oficiais, poemas, caricaturas, correspondências privadas Para saber e memórias.
Como destaca Marco Morel, "Redigida com estilo ágil e direto do jornalismo, sempre traz explícito o ponto de vista do autor - que cita, incorpora e se posiciona diante de visões contrárias e hostis aos feitos dos marujos de 1910".
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