Sábado , 19 de Junho de 2010 às 06:08h

A morte de Saramago


Saramago: a morte o rodeava deste 2007

 

Leiam aí como o Diário de Notícias, de Portugal, repercute a morte do escritor José Saramago. O texto é do jornalista João Céu e Silva.

 A luta contra o fim anunciado começou quando foi internado em 2007. Poucos acreditaram que sobreviveria, até o próprio Saramago.

 O último encontro que José Saramago tem marcado com a vida é quase certo que será junto a uma oliveira, como em tempos foi o seu desejo. Poderia ter sido aquela que um amigo lhe ofereceu para plantar no jardim da sua biblioteca em Lanzarote, mas o seu desejo era ser cremado e que as suas cinzas permanecessem em Portugal.

 Essa vontade irá ser cumprida e, apesar de ontem ainda não ser conhecido o local exacto onde ficarão depositadas as cinzas de José Saramago, poderá ser junto de uma oliveira da sua terra natal, a Azinhaga do Ribatejo.

 A oliveira está no jardim que fica à porta da biblioteca, onde ontem o seu corpo repousou em definitivo, no meio de milhares de livros que guardam milhões de lições de vida e metáforas que em vida Saramago ia folheando. A oliveira foi levada ainda pequena para a ilha, a fim de lhe lembrar na desoladora paisagem vulcânica como era a vista da planície da infância, onde nasceu há 87 anos.

 A morte do escritor caiu na Redacção do DN, onde foi director adjunto durante alguns meses conturbados de 1975, poucos minutos após ter falecido. Daí, a notícia começou a correr Lisboa e rapidamente deu a volta ao mundo, sendo apanhada por milhões de leitores que em mais de quatro dezenas de línguas lêem a sua obra. E apanhou-os de surpresa porque, apesar da idade e da doença que não o largava, havia sempre a esperança para muitos de que Saramago fosse escrevendo livros como antídoto para a morte que um dia haveria de chegar. Existia até quem se tivesse um dia oferecido para imitar a recolha de espíritos, como Blimunda fazia, para lhe prolongar a existência.

 A morte rodeava José Saramago desde 2007, mas o escritor mantinha-se decidido a prolongá-la com uma justificação literária, a de precisar de acabar o livro que tinha em mãos. Não parou quando lhe entregaram o Prémio Nobel, nem aceitou que houvesse baias à sua criação. O José que havia em si desde criança sempre foi assim, e o Saramago, que lhe foi posto como apelido por engano no registo, também teimou em ser ainda mais assim. O seu último livro foi a prova final dessa eterna determinação, uma rebelião contra o Antigo Testamento protagonizada por Caim, que reeditou a polémica do Evangelho segundo Jesus Cristo. O próximo livro seria contra a guerra e questionava o porquê de existirem tantos conflitos no mundo. Deixa várias páginas, mas ainda muito em princípio.

 O escritor teimava contra o fim da vida, mas não temia a morte. Sobre ela disse, ao sair do hospital em 2008: "Sempre tive uma tendência muito forte para a relativização, e a doença levou-me a consolidar - não para um ponto de vista céptico - como tudo é relativo e não vale a pena a gente estar a preocupar-se muito. Morrer é… simplesmente natural."

 Dois dias depois dessa saída do hospital, de onde poucos acreditavam que fosse pelo seu pé, Saramago revelava a sua determinação: "Agora, viverei o que faltar."

 E o que era este faltar? "Viver aquilo que ainda tenho para viver, que, com esta idade, não pode ser muito, mas vou tentar por duas, três ou quatro razões vivê-lo bem. Não é viver na farra porque nunca fui disso, viver bem como tenho vivido com a Pilar que foi algo que eu não podia esperar que me sucedesse", disse.

 A determinação de viver mais algum tempo para a escrita era tão intensa que o escritor fazia questão de alternar os seus momentos de doença com aparições públicas de âmbito cultural, em Lanzarote e em Portugal, e entre ambos sentar-se na sala da sua casa com o computador portátil sobre uma mesa de apoio, a continuar os livros. Mesmo quando foi internado em Novembro de 2007, os médicos do hospital foram surpreendidos com um pedido inusitado de o curarem porque precisava de terminar A Viagem do Elefante. O livro tinha ficado interrompido às quatro dezenas de páginas, e Saramago não o aceitava, tanto que, mal pôde, regressou à escrita, e em poucas semanas deu-lhe fim.

 Apesar de fugir sempre da autobiografia nos seus romances, questionava até que ponto uma passagem de A Viagem do Elefante não tinha que ver com alguns momentos da sua quase-morte, como é o caso do episódio em que o elefante e o tratador andam perdidos no nevoeiro.

 Os últimos meses de José Saramago foram de grande retiro na sua casa em Tias de Fajardo e com vários internamentos no hospital de Arrecife, a capital de Lanzarote. Há um mês, o seu estado de saúde tornara-se mais preocupante, e a cada dia que passava o receio de uma inevitabilidade aumentava. Mesmo assim, foi inesperado o momento em que, ontem, o site da Fundação José Saramago foi encerrado e deixou escrito, sobre um fundo negro, o desfecho: "Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12.30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila."

José Saramago vivia desde há anos em Lanzarote, e do jardim frente à sala gostava de apreciar a paisagem. Há as montanhas vulcânicas que caracterizam a ilha e o mar que a rodeia. O escritor não se conseguia decidir sobre o elemento natural que mais gostava: se o mar extenso, se a montanha. Parece que preferia um pouco mais a encosta, apesar de reclamar da sujidade que os turistas ali deixavam, como que a "imitar os alpinistas do Evereste".

 Bastava-lhe atravessar a rua para estar no interior da sua biblioteca, aquela onde ontem ficou a ser velado na última noite que o seu corpo passou em Lanzarote. Do portão da residência a que chamou "A Casa" até à biblioteca, que parece uma catedral onde os santos são os livros, era um passeio rotineiro quando estava de boa saúde, e, às vezes, era interrompido nos passos por leitores que, ao chegarem a Lanzarote, perguntavam pelo seu endereço, e logo lhes era indicado o lugar da casa de Dom José. Aliás, a localidade onde morava era conhecida por Tias, e o novo habitante fez questão de a voltar a chamar à antiga - Tias de Fajardo -, tal como o fizera com a Azinhaga, agora sempre acrescentada de do Ribatejo.

 À entrada da biblioteca, uma fotografia sua com Pilar del Río, perto de outra com Maria Kodama e Jorge Luis Borges também lado a lado. Não era por acaso, antes uma homenagem ao escritor argentino que foi bibliotecário na juventude e autor do conto a Biblioteca de Babel.

 Comia na cozinha e gostava de grão cozido, sobre o qual ajuizava se estava mais ou menos no ponto que da última vez que lhe fora servido. Lia os jornais de referência espanhóis e um ou outro desportivo para saber como ia o futebol.

 De vez em quando ia à cidade e visitava a livraria de Norberto para escolher entre o que havia ou encomendar o que desejava ler. Mas raro era o dia em que o carteiro não entregava um pacote com livros na casa do Prémio Nobel, muitas vezes mais uma tradução dos seus livros em línguas ininteligíveis e, noutras, ofertas de outros escritores e editoras.

 Quanto ao exílio que diziam viver em Lanzarote, Saramago fazia questão de ser directo: "Que disparate! Sou uma pessoa que mudou de bairro ou o que decidiu ir para outra casa porque o vizinho do patamar de cima fazia muito barulho." E era tão verdade que na primeira oportunidade voltou a procurar onde ter pouso em Portugal - "onde pago os meus impostos", dizia - e comprou uma casa no Bairro do Arco Cego, Lisboa.

 No pequeno jardim interior, havia uma cadeira para apanhar o sol de Abril, de que tanto gostava. Sobre a porta da casa, um painel de azulejos de Rogério Ribeiro sinalizava a casa com uma Blimunda com um pão na mão.


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Quinta-Feira , 17 de Junho de 2010 às 16:54h

A bola e a economia brasileira



Por José Virgolino de Alencar

Não há melhor indicador para espelhar a realidade econômica de um país do que a bola, ou seja, o futebol. Em torno do chamado esporte bretão, que se constitui num importante segmento do mercado, ainda mais no mercado globalizado, circula um mundo de riquezas, movimenta somas astronômicas, mas tudo ocorre na proporção da força econômica do país.

Quando a bola rola, rola o caixa da economia, havendo, assim, a bolonomia, ou a economia da bola. Olhando, então, para o desenrolar desse segmento, observamos ou podemos concluir que há uma grande mentira no oba-oba do crescimento econômico do Brasil. O futebol nacional cuida de desmentir a farsa, bastando mostrar algumas circunstâncias claramente visíveis.

Como país do futebol, rico manancial de craques, esporte de preferência das massas, torna-se claro que a economia do Brasil não tem condições de participar do bolo da bola, por seu incipiente sistema econômico e fraquíssimo mercado. É o país que tem o maior número de jogadores atuando fora do país e são os melhores jogadores do mundo.

Porém, nessa área, nosso país perde para todas as nações européias e para muitas asiáticas. O Brasil não tem, por fragilidade econômica, capacidade de segurar nenhum craque que se destaque no início de carreira, limitando-se a receber nossos jogadores em fim de festa, quando já não mais há interesse do exterior por eles.

Isso é um fato decorrente diretamente da situação econômica, da renda nacional, da capacidade de consumo. No Brasil, nenhum time tem condições de pagar um bom elenco, porque a população não pode pagar o preço, baixo, do ingresso, os patrocinadores não podem financiar os times, porque o retorno não compensa, a televisão não tem condições de pagar bem pelas transmissões porque os anunciantes não podem pagar os valores que seriam necessários para, tudo somado, remunerar os craques e as agremiações.

Qualquer pais pequeno da Europa remunera melhor o jogador brasileiro. A Rússia e outros países da antiga União Soviética, a Turquia, alguns países árabes, sem falar no Japão que é potência reconhecida, todos eles, despendem no futebol somas impensáveis para o Brasil, mantendo lá os nossos craques. O baixo poder aquisitivo do brasileiro, que não lhe permite participar de uma de suas maiores paixões, é fruto da má distribuição de renda, das profundas desigualdades sociais, num país que tem 90% de seu PIB concentrados nas mãos de 10% de sua população.

Quando se olha para Espanha, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, grupo de países que a idiotice brasileira engole os engodos oficiais vendendo a falsa idéia de que nosso país está próximo deles, vem a bola, bate na cara dos ufanistas de plantão e manda o recado indesmentível, provando que estamos longe, muito longe, dos europeus. Até Portugal, que temos a petulância de gozar, faz a bola rolar em cima de um capital na realidade invejável para nós.

Nos países supracitados, o futebol coloca nas arquibancadas até 80.000 espectadores pagando ingresso de valores muito superiores aos do Brasil, os patrocinadores financiam jogadores e times em valores que comprariam de uma só vez vários times brasileiros, cada canal de televisão paga pela transmissão soma superior a todas as TV’s do Brasil em um jogo da seleção. Assim, a renda de um jogo dos menos votados na Europa atinge valores que nenhum espetáculo de primeira do Brasil pode igualar.

Em resumo. A bola, para quem entende dela, do contexto em que a redonda está inserida e de economia, dribla a mentira oficial do enganoso poder político-administrativo do Brasil, que tenta vender, através de um maquiado marketing(este, sim, caro para os cofres nacionais), um produto que não existe no mercado nacional. Ou seja, o povo brasileiro não tem renda sequer para consumir uma pelada, coisa que tem muito no Brasil, imaginem consumir um grande espetáculo futebolístico, exatamente o produto ausente nas prateleiras do mercado do país do futebol.

No Brasil, a bolonomia, ou economia da bola, desmoraliza a engodonomia, ou economia do engodo.


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Quarta-Feira , 16 de Junho de 2010 às 19:41h

Noite de emoções


Por Petrônio Souto

Fazia tempo que não participava de um evento tão emocionante. O lançamento do livro Cinema por escrito, que reúne textos primorosos de Barreto Neto sobre clássicos do cinema, selecionados com carinho por Sílvio Osias, mexeu tanto comigo que o velho coração, já meio impreciso nas batidas, exigiu menos excesso, forçando minha saída à francesa, antes do encerramento da cerimônia.

De nada adiantou a fuga. Sozinho, na varanda do apartamento, tendo como tela o mar sem fim do Cabo Branco, acabei assistindo a um belíssimo “flashback”, bem ao estilo Giuseppe Tornatore, com direto a trilha sonora de Ennio Morricone. Na fita, a participação especial do inesquecível Barretinho e de muitos contemporâneos que tive a satisfação de rever e abraçar, momentos antes, na Fundação Casa de José Américo.

A prova do abalo emocional está na matéria do jornal A União, publicada nesta quarta-feira (16). Nela, há uma foto em que sou flagrado ao lado de Sílvio Osias e Gonzaga Rodrigues, apresentando certo incômodo, afetado por alguma coisa, fazendo inexplicável contraponto com os companheiros de pose, ambos serenos, cheios de charme, saudosos mas felizes.

Normalmente me apresento em público descontraído, risonho, brincalhão. Na foto, porém, estou, digamos, destoando do clima de festa. Aparentemente não havia nenhuma razão para o péssimo desempenho diante do clique de Ortílio Antônio.

Mas não dava para disfarçar. A fotografia capta perfeitamente o estado afetivo do fotografado. Queria chorar, eis a verdade, pela cruel impossibilidade de ter Barretinho conosco, naquele momento especial para ele e para todos nós, seus eternos discípulos.

A carga de emoção vem de longe. Sou filho intelectual da generosidade de Barreto Neto. Na redação da antiga Secretaria de Divulgação e Turismo, no começo dos anos 70, ele me ensinava, com a paciência dos velhos mestres, quase que pegando nos meus dedos para pressionar as teclas da máquina de escrever, os segredos do texto que valoriza o essencial e a importância de acumular conhecimentos de forma sistematizada.

Quando Martinho Moreira Franco, outra figura humana extraordinária, numa noite chuvosa de segunda-feira, me telefona lembrando o compromisso, não tive mais dúvida: algo de muito raro estava para acontecer. Não deu outra: acabei presenciando um ato público em que o melhor do patrimônio humano da Paraíba decidiu comparecer em peso para reverenciar um dos maiores intelectuais da nossa terra.

Atualmente, na Europa ou nos EEUU, só se pode lançar no mercado editorial produto parecido com o livro de Sílvio Osias. O trabalho de Milton Nóbrega, Juca Pontes e Nilton Tavares é um monumento à arte gráfica. A pesquisa de Clélia Ramalho e Luzia Lima -as “garimpeiras” de Sílvio, uma declaração de amor ao autor dos textos.

A revisão de Antônio Morais e Juliene Osias, de uma competência de arrepiar os profissionais mais exigentes, dispensa comentários. O título da obra, estalo criativo do homem de marketing Lauriston Pinheiro junto com o organizador do livro, tem a força das coisas simples. É o imã poderoso que atrai o cinéfilo para essa obra fantástica, em qualquer prateleira da vida.

Na “orelha” do livro, Gonzaga Rodrigues, o patrono querido de toda uma geração, derrama sentimentos fraternais e acaba sendo porta-voz de todos que tiveram o privilégio de conviver com o iluminado Barreto. Tudo perfeito para abrigar conteúdo tão valioso. Quando quer, a Paraíba é insuperável no que faz. Ótimo que tenha caprichado na homenagem a Antônio Barreto Neto.




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Segunda-Feira , 14 de Junho de 2010 às 20:41h

Homenagem ao Poeta


Filosofia 

                                           Noel Rosa

 O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome

Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidăo sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim

Năo me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga

Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo

Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas năo compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava
Dessa gente que cultiva hipocrisia


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Segunda-Feira , 14 de Junho de 2010 às 19:40h

O heliocentrismo na política da PB


Por Agnaldo Almeida

A força de atração que o governo exerce sobre os políticos paraibanos é tão ou mais forte quanto a força que o Sol exerce sobre os seus planetas, a Terra no meio.

 A este princípio dá-se o nome de heliocentrismo e, se no campo da física é ele o responsável pela estabilidade do nosso sistema solar, na política paraibana pode-se afirmar ser esta irresistível atração governista a principal razão pela qual as oposições no estado costumam enfrentar tantas e tão complicadas barreiras eleitorais.

Ao que me lembra, quem primeiro se referiu a este “efeito heliocêntrico” da política paraibana foi, tempos atrás, o ex-governador Tarcísio Burity. Lá pelos idos de 1986, disputando o governo do estado pela segunda vez, ele se deu conta de que, embora contasse com a maioria absoluta da preferência do eleitorado, os partidos políticos e seus principais caciques teimavam em aliar-se às forças governistas, comandadas, na época, por Wilson Braga e Marcondes Gadelha.

 A adesão popular ao nome de Burity era de tal forma avassaladora que, abertas as urnas, ele sagrou-se vencedor, com 61,2% dos votos, contra 37,2% dados a Gadelha. Os resultados por si só são mais do que expressivos, mas a crônica política da época registra o quanto a oposição, mesmo em situação tão vantajosa, teve de se desdobrar para derrotar o esquema governista. Valeu naquela eleição o anseio de mudança que havia tomado conta da grande maioria do eleitorado.

 Contam-se nos dedos casos semelhantes a este. No geral, e sobretudo depois de adotado o princípio da reeleição, o comum é que a “força gravitacional” dos governos acabe favorecendo a renovação dos mandatos.

 Mas isso não é uma regra infalível. Que é difícil lutar contra quem comanda a máquina administrativa estadual, todo mundo sabe. Mas igualmente se sabe que uma oposição organizada, em sintonia com os anseios das ruas e falando uma mesma linguagem, tem, sim, condições de enfrentar o dragão da maldade.

 Para cumprir o papel de “santo guerreiro”, a oposição paraibana precisa ter tudo isso: organização, sintonia com as ruas e discurso unificado. Não é o que vem acontecendo até agora. Problemas e mais problemas têm se repetido e cada um deles precisa de solução urgente.

 Evidentemente que a campanha ainda não começou pra valer. As condições de disputa só ficarão medianamente equilibradas, principalmente na mídia, quando tiverem início o guia eleitoral e as manifestações públicas.

 Mas isso só não bastará. A oposição precisa de muito mais. Precisa demonstrar aquela conhecida unidade dos mosqueteiros (um por todos e todos por um) e mais ainda: terá de trabalhar redobrado, dia e noite, se quiser empolgar o eleitorado com suas eventuais propostas de mudança. Mudança – esta é a palavra que poderá fazer a diferença.

 Não sendo assim, o efeito heliocêntrico fica de melé solto.


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Segunda-Feira , 14 de Junho de 2010 às 16:55h

Choveu solidariedade


Por Agnaldo Almeida

Nessa chuvarada toda, uma cena comovente na Epitácio Pessoa: uma jovem estudante de uns 16 anos, segurando sua sombrinha, protegia com extremo cuidado um desses meninos de rua, aparentando uns cinco ou seis anos. Até deixá-lo no abrigo do ponto de ônibus do outro lado da avenida.

 Depois, missão cumprida, ela voltou a atravessar a rua, dirigindo-se a um prédio localizado no sentido oposto para onde havia conduzido o garoto.

 Fez-me lembrar trecho de uma mensagem há muitos anos escrita pela ex-primeira dama dos Estados Unidos, Rosalynn Carter. Dizia ela:

 - Só existem quatro tipos de pessoas no mundo. Os que já cuidaram de alguém, os que estão cuidando de alguém, os que cuidarão de alguém e os que precisarão dos cuidados de alguém.


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Quinta-Feira , 10 de Junho de 2010 às 10:21h

Performance de Dilma ajuda o PT local


Por Agnaldo Almeida

Já comentei aqui outro dia que a boa performance da ex-ministra Dilma Roussef nas pesquisas eleitorais acaba tendo uma repercussão extra na política paraibana: é que o PT estadual começa a falar mais grosso, passando a encarar o PMDB com um mínimo de altivez partidária.

 Isso se dá pelo seguinte: com a subida de Dilma, fica claro que nos Estados são os peemedebistas, e não os petistas, que desejam mais ardentemente uma coligação. Ora, se Dilma continuar sua curva ascendente nas pesquisas, o PMDB sentirá a inevitável necessidade de amparar-se no seu palanque – e o palanque, como se sabe, é do PT.

 Assim, o PT paraibano tem mais uma chance de abandonar a postura de primo pobre da coligação com o partido do governador Maranhão. Este, por sua vez, não terá condições de esnobar os petistas, descartando-os tão acintosamente como fez com o atual vice-governador Luciano Cartaxo.

 Ontem, em conversa com o deputado Rodrigo Soares, ouvi dele que é isto mesmo, ou seja, o PT vai insistir com a vaga de vice-governador na chapa e não descarta uma surpresa de última hora, caso venha a ser escanteado.

 Quem primeiro falou nesta “surpresa” foi o deputado Jeová Campos, sem dar nenhuma dica sobre o que seria. Mas nas conversas de bastidores comenta-se que articuladores petistas já estariam conversando com o ex-prefeito Ricardo Coutinho.

Em resumo, confirmando-se este quadro favorável ao PT, a situação voltaria ao exato ponto que sempre foi defendido pelo deputado Luiz Couto. Que não aceita, e nunca aceitou, a posição agachada do partido em relação à soberba peemedebista.

 Maranhão tem, portanto, um nó cego para desatar: ou aceita o PT como vice – e neste caso não atende às expectativas dos aliados em Campina Grande – ou corre o risco de perder o apoio petista. Se não formalmente, ao menos pela militância de uma dissidência que, a esta altura, já é mais do que representativa.

 Parte da imprensa alardeia que o governador é extremamente habilidoso neste tipo de articulação. E, de fato, em várias oportunidades, ele tem demonstrado isto. Vamos ver se ele, neste caso, tem alguma carta na manga.


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Quinta-Feira , 10 de Junho de 2010 às 10:17h

O feeling da notícia



Por Petrônio Souto

A violência está insuportável? Então as polícias civil, militar, federal, rodoviária federal, ferroviária federal, portuária federal, florestal, municipal, prisional, et cetera e tal, e todos os serviços de inteligência, em uma colossal e imbatível força-tarefa, aparecem na telinha, nas primeiras páginas, em cadeias de rádio e em todos os sites, blogs, portais e tudo o mais, exibindo o resultado de uma megaoperação contra bandidos de alta periculosidade. A sociedade respira aliviada, começa a imaginar que existe de fato um aparato de segurança ágil e eficiente dando proteção a todos, dia e noite.

A corrupção está engarrafando os grampos? Então dá um “zoom” num Arruda qualquer. Com todo o mundo jogando pedra na Geni, fica a idéia de que o Brasil está sendo passado a limpo. As doenças endêmicas estão de volta? Então vamos distribuir milhões de camisetas com as inscrições: Todos contra a tuberculose, Todos contra o cólera, Todos contra a malária, Todos contra a hanseníase, Todos contra a dengue. Milhões de pessoas vestindo a camisa formam uma verdadeira cruzada em defesa da saúde pública.

As drogas estão assustando, invadindo o lar doce lar brasileiro? Então vamos cuidar de distribuir milhões de camisetas, outdoors, banners, jingles, VTs e adesivos com o grito de guerra: “Drogas? Tou fora!” ou “Crack? Jamais!”. Daí pra frente, nada será como antes. O país foi salvo pela vontade indestrutível do seu glorioso povo, em valiosa parceria (palavrinha chata, meu Deus!) com os imaculados meios de comunicação, sempre dispostos a cortar o mal pela raiz.

Não se assuste, respeitável leitor, isso é o feeling da notícia. No mundo do espetáculo em que vivemos, o fato vale muito pouco, a realidade menos ainda. O que importa é a versão do fato, sobretudo a imagem, qualquer imagem diante dos nossos olhos desatentos. Resultado: O sofisma e a verossimilhança são repassados ao chamado povo em geral como verdade verdadeira.

E o feedback (argh!) tem que ser imediato, em cima da bucha, para os contestadores não ganharem fôlego. A preocupação maior é furar o balão da evidência de uma farsa bem bolada, sutilmente convincente, uma coisa tão vazia quanto uma bola de festa, mas que ao explodir (esse é o termo que se usa) na opinião pública, faça o barulho de uma bomba de nêutrons.

Tem que ser uma coisa poderosa, que de alguma forma justifique o injustificável, explique o inexplicável, mas que penetre nos corações e mentes como acordes de uma sedutora melodia. Se o povo ficar com a vaga idéia de que há governo, de que o governo se move com agilidade, apesar da sua compleição paquidérmica, então é o máximo, a glória, entramos no Nirvana. O povo finalmente assimilou o feeling da notícia. O trabalho se completa com uma pesquisa ligeira, apenas para confirmar que a boiada amansou com o aboio certo, na hora certa.

É impressionante como as autoridades resolveram dialogar com a opinião pública em bases tão fantasiosas. E isso não é de hoje nem é coisa da Paraíba. É um mal universal, planetário, que o diga o nosso Marshall McLuhan. Vai de Barack Obama ao prefeito da Baixa da Égua. O governo vai mal, o povo sofrendo, mas a badalação das pesquisas, encomendadas pelo único interessado por números otimistas, deixa o chefe convencido de que está no caminho certo.

O feeling da notícia é o atual xodó dos homens públicos, em todas as latitudes e longitudes do globo terrestre. E, ao que parece, é uma panacéia tão milagrosa que, quando o cara perde a eleição, trata de botar a culpa no marqueteiro, no manipulador da fórmula, no mago do teleprompter. Coitado, logo o marqueteiro, vítima da mesma miragem, ilusionista que, muitas vezes, como um crente da Universal, passa a ter fé cega no falso brilhante que ele mesmo produziu.

Mas, leitor, para ser sincero, veja tudo isso como coisa de curioso. Admito meu desconhecimento dessas perigosas engrenagens. Sou de um tempo em que as autoridades eram mais discretas, um pouco mais sensatas, criaturas de carne e osso. Sou de um tempo em que as pessoas tinham projeto de vida, não de marketing.


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Quinta-Feira , 10 de Junho de 2010 às 10:15h

As verdades sobre o crescimento econômico


 
Por José Virgolino de Alencar

No Blog do Noblat consta uma matéria, vinda da euforia do governo que prima pelo falseamento dos dados econômicos, dando conta de que o Brasil cresceu, com a informação anualizada, 9% de seu PIB. Grossa mentira, em cima da manipulação dos dados.

 Em 2009, são dados do IBGE, o crescimento foi negativo, precisamente de -0,2% do PIB, ou seja, deu para trás.

O primeiro trimestre de 2010 cresceu 2,7%, superior ao mesmo período de 2009 em 9%, significando os 9% apenas o excedente sobre o índice do início de 2009 e não acréscimo de 9% ao PIB total. O crescimento anualizado de 1º de abril de 2009 a 30 de março de 2010, foi de 2,4%.

 Com base nesses 2,4%, por projeção sem base na realidade futura e mais por marketing eleitoral, os vassalos do governo projetam, apressadmente, um crescimento para 2010 da ordem de 10% e afirmam mais apressadamente que será superior ao da China.

 Projetar esse crescimento para o resto do ano é uma mistura de advinhação, com toques de manipulação para a opinião pública desinformada na matéria.

 E aí surge a contradição e a adoção de medidas que trazem como consequência o desaquecimento da economia.

 Se o governo está cortando as despesas, reduzindo investimentos, deixando um monte de obras do PAC pelo caminho, inconclusas, e anuncia o aumento da taxa básica de juros, que certamente irá engolir o dinheiro economizado do orçamento, como então a economia deslanchar, se está impedida por essa forte trava?

Crescimento igual ao da China? Quer dizer que os espertos olhos apertadinhos se mudaram para o Brasil?

Ora, pois....!


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Terça-Feira , 08 de Junho de 2010 às 10:22h

Esperando Galvão


Por Petrônio Souto

Gosto de Galvão Bueno porque quando ele faz uma crítica, por menor que seja, é o primeiro sinal de que a seleção brasileira está fora da Copa. Normalmente Galvão só faz sua crítica mais ácida nos acréscimos do segundo tempo da última derrota que nos deixa definitivamente fora do torneio. Como torcedor fanático que sou, nesses tempos nervosos de Copa do Mundo, vivo literalmente esperando Galvão.

 A pequena crítica do narrador global nos deixa absolutamente tranqüilos, é o apito final. Eu disse apito? Então disse-o muito mal. Galvão é a palavra final em tudo. Júnior, Falcão e Casagrande estão carecas de saber disso. Galvão é a própria regra clara do mago da arbitragem Arnaldo César Coelho: Galvão criticou? Então tá lascado.

 Galvão é incrível, não erra uma. Então, não façamos mais especulações sobre o futuro do Brasil na Copa da África do Sul. Deixemos o genial Dunga na paz do Senhor ou dos cemitérios, como queiram. Aguardemos a palavra final, ou melhor, a única e definitiva crítica do nosso imparcial e independente Galvão Bueno.

 De minha parte, de minha mui insignificante parte, só peço a Deus que Ricardo Teixeira e Galvão Bueno, como dois generais romanos, voltem triunfantes da África, desfilem em trio elétrico aberto, transparente, pelas ruas embandeiradas deste país. Não importa se trio elétrico da Bhrama ou da Antarctica; se com Ivete Sangalo ou Rebolation.

Quero ver a dupla dinâmica Ricardo & Galvão, como acrobatas do Cirque de Soleil, repetirem aquelas cambalhotas de Vampeta na rampa do Palácio do Planalto, diante do não menos orgulhoso mano Lula do Corinthians. Ah, as cambalhotas de Vampeta! Já entraram definitivamente para a história recente deste país.

 Só assim, pastor Alex Filho, teremos mais democracia na CBF, nas federações estaduais, nos cambaleantes clubes brasileiros, e, sobretudo, menos subserviência no seio (Ops!) da imprensa brasileira (vocês não notaram como só tem mulher cobrindo futebol, aqui na Terra de Vera Cruz?)

 Pra frente, Brasil! Vamos deixar de ter nacionalismo somente durante a Copa do Mundo, assim mesmo enquanto a seleção ainda está disputando o caneco. Vamos esbanjar nacionalismo, sempre e eternamente. Viva o Brasil! O resto do mundo pouco importa. Somos o próprio paraíso terrestre. Bom Dilma para todos.


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Terça-Feira , 08 de Junho de 2010 às 10:04h

Agora é no mundo todo


Por Agnaldo Almeida

A gente costuma criticar as baixarias que marcam as campanhas políticas na Paraíba. E, de fato, é estarrecedor o que ocorre nestas temporadas eleitorais. Mas, isto não é uma exclusividade nossa. Vejam aí o que diz o jornalista Merval Pereira, em sua coluna de hoje, n”O Globo:

A campanha presidencial brasileira está atingindo graus de baixeza política que se costuma criticar nas eleições americanas. Por lá, é habitual na época da eleição surgirem livros escandalosos com supostas revelações contra os candidatos, um hábito que os marqueteiros republicanos cultivaram e que acabou sendo usado também pelos democratas contra George W. Bush.

 Mas o surgimento de dossiês com supostas acusações que derrubarão o candidato tal ou qual já está se tornando uma nociva tradição, graças ao PT.
Agora, sabe-se que a campanha da candidata oficial Dilma Rousseff tentou contratar ex-agentes de informação para montar dossiês contra o candidato do PSDB, José Serra, e parentes dele, além de grampos telefônicos, o que introduz na disputa eleitoral um tom acima de ilegalidade.


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Terça-Feira , 08 de Junho de 2010 às 09:52h

As Razões de Estado


 Por Aristheu Formiga*

 A imprensa ocidental repercutiu esta semana o ataque militar, em águas internacionais, com força superior e desproporcional, de comandos israelenses à tripulação de um comboio de navios que levava ajuda humanitária para a população palestina que habita a Faixa de Gaza.

 Registraram-se 12 mortos, apenas entre a tripulação do comboio. Feitas as condenações verbais no conselho de segurança da Organização das Nações Unidas, as perorações preocupadas de chefes de estados e chanceleres, as enunciações indignadas dos países da Liga Árabe – que reúne, basicamente, as nações que têm diferenças militares e políticas com as práticas de Israel, tudo fica como está, os sobreviventes deportados, que relatam o lançamento de alguns mortos ao mar.

 O que não apareceu nem se discutiu, foram as Razões de Estado, alegadas unilateralmente por Israel, para o ato de guerra. O querer do príncipe Noberto Bobbio nos ensina que a doutrina fundante da expressão Razão de Estado, surge no estado moderno, particularmente na Europa dos séculos XVI e XVII, influenciada pelo pensamento e formulações de Nicolau Maquiavel.

 Segundo Bobbio, esta tradição afirma que a segurança do Estado é uma exigência de tal importância que os governantes, para a garantir, são obrigados a violar normas jurídicas, morais, políticas e econômicas que consideram imperativas, quando essa necessidade não corre perigo.

 Ou seja, invocam-se as Razões de Estado em situações onde, real ou supostamente, avalia-se que existe risco à segurança de algum estado nacional. Não é a primeira e, provavelmente, não será a última vez que Israel recorre à mão militar para a defesa de alegados interesses, presentes ou difusos.

 Uma diferença é que esta decisão de ataque militar a navios humanitários com bandeira turca, ocorreu uma semana após a Turquia, junto com o governo brasileiro, mediar um acordo para o enriquecimento de urânio do Irã, cujo o governo nega o holocausto e promete, retoricamente, destruir Israel. Por muito menos, guerras e atrocidades já foram cometidas.

 Esporte e paz

 Estive, neste feriadão de Corpus Christi em São Miguel do Oeste, participando da XXII Confraternização Olímpica dos Funcionários das Fundações Educacionais do Sistema ACAFE, junto com mais 620 atletas, que disputam 17 modalidades esportivas, no campus da Universidade do Oeste de Santa Catarina. Blumenau está representada por 50 servidores e dirigentes da FURB, jogando bocha, canastra e até xadrez. Pela opinião da maioria com quem conversei, gostariam que, as diferenças de opinião e de territorialidade, fossem resolvidas assim, com esporte e paz.

 *Aristheu Formiga é paraibano,jornalista e professor universitário em Santa Catarina, além de colaborador emérito deste blog.



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Terça-Feira , 08 de Junho de 2010 às 09:44h

Entre aspas


"O nacionalismo brasileiro só existe na Copa de Mundo, enquanto a seleção está no torneio. Viva a Bolívia!"  (Do internauta Evo Santamaría, no Blog Futebol et cetera, do jornalista Marcondes Brito)


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Segunda-Feira , 07 de Junho de 2010 às 21:20h

O sonho de cada um


Por Agnaldo Almeida

No consultório médico – tenho freqüentado estes ambientes cada vez com maior frequência – estavam umas quinhentas mil pessoas à espera de atendimento. Não levei livro, revistinha de palavras cruzadas, nada. Fiquei, então, folheando uma edição da IstoÉ do ano passado. Como não estava atrás de notícias, qualquer coisa servia, até a IstoÉ.

 Todos vocês já sabem que o tempo nestas salas de espera não passa nunca. Pois bem, estava eu ali, pachorrentamente, quando um vizinho de cadeira perguntou:

 - Você é jornalista, não é?

 Resmunguei que sim, apenas balançando a cabeça. Um cidadão à frente, se encarregou de desfazer qualquer mistério:

- Esse aí é Agnaldo, não conhece, não?

 O cara conhecia; ele e mais uns dois ou três. E foi aí que começaram os problemas. O primeiro, aquele que perguntou se eu era jornalista, quis logo saber se na minha opinião Maranhão estava eleito ou poderia dar Ricardo Coutinho.

 Esse é o tipo da pergunta que nem eu nem Nossa Senhora das Neves gostamos de responder. Eu, porque não sei qual será o resultado das eleições e Nossa Senhora, certamente, porque não há de se envolver em assuntos deste quilate.

 Mas a pergunta estava feita, pairava no ar, e antes que pudesse ensaiar uma resposta, eis que outro circunstante, de camisa verde, entra na conversa e dispara:

- Essas pesquisas que estão aí são todas mentirosas. O senhor não acha? – perguntou ele me encarando.

 Não percam a conta: eu já estava devendo uma primeira pergunta – aquela sobre se Maranhão estaria eleito ou não. Agora, já aparecia outra: as pesquisas estão mentindo?

 Fechei a velha IstoÉ, me aprumei na cadeira e quando ia me preparando para arriscar uma opinião, fui novamente atropelado. Desta vez era uma senhora, meio perua, meio elegante, que colocava tempero novo numa conversa da qual eu, a rigor, não havia ainda participado.

 - Eu acho que vocês não sabem é de nada. Aqui em João Pessoa os eleitores mentem muito. Eu, não, que não preciso disso, mas a maioria é dependente do poder público. E quando não é, quer ser.

 - Você concorda com ela? – perguntou-me o rapaz de camisa verde.
Bebi o último gole d’água do copinho de mineral, molhando a goela para melhorar os pensamentos, quando ouvi uma voz no canto da sala:

 - Se for responder, seja sincero. Não faça como a maioria dos seus colegas jornalistas que ficam mentindo o tempo todo, muito mais do que as pesquisas.

Quando olhei pra ver quem falava, quase caí: era um sujeito baixinho, barriga proeminente, bigodinho aparado e olhos pequenos. Reconheci de imediato a figura. Era Maranhão. Só não sabia como ele havia chegado ali sem que ninguém notasse. Teria sido de avião?

Não sou de criar confusão, mas também não costumo levar desaforo pra casa. Levantei-me, encarei o cidadão e antes de dizer palavra ouvi a voz da atendente do médico me chamando:

 - Senhor Agnaldo. Pode entrar.

 Senti alívio e desconforto. Ao mesmo tempo em que me livrava de uma conversa (?) pra lá de chata, lamentava também não poder ter dito àquelas pessoas que elas deveriam mesmo era procurar um médico.

 Bom, quando finalmente entrei no consultório, o doutor já estava de pé. Era ele: dr. Ricardo. E uma luz se acendeu, muito clara.

 Acho que menos de um minuto depois, acordei. Com tanta coisa no mundo, foi logo com a política da Paraíba que eu fui sonhar.

 Contei este sonho a Marcos Pires e ele me surpreendeu: também tinha sonhado com algo parecido, só que tudo ao contrário. No caso dele, Maranhão e Ricardo é que entravam no seu escritório.


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Sábado , 05 de Junho de 2010 às 19:16h

Entre aspas


“Política para mim é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol - nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos”. (Da coluna de Caetano Veloso, em O Globo).

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